
No homem, a vontade espiritual é, de início, ontologicamente superior a todo o universo sensível; e como se não bastasse essa soberania para dar ao homem uma coroa de realeza, dotou-a Deus de tal abertura que, não apenas nenhum ser sensível, mas nenhum ser criado poderá saciá-la e determiná-la. Em relação a tudo, aos mais altos bens criados a vontade permanece disponível, insatisfeita, livre. Como, porém, Deus nos escondeu a sua face, e a tênue luz da fé não basta para convencer invencivelmente a vontade convalescente do pecado original, ocorre o que de certo modo retoma a tragédia do primeiro pecado: a sede de infinito e de universalidade da vontade espiritual se volta para baixo e projeta na vontade sensível uma força nova de pluralização e de insaciabilidade. E então, em contraste com a frugalidade dos animais, o homem aparece no quadro visível do universo com uma polivalência de apetites e uma pluralização de conhecimentos que constituem uma prova irrefutável de sua natureza especificamente superior e irredutível à dos animais. Mas essa mesma estonteante variedade de conhecimento e de vontade sensíveis nos dá uma evidência da desordem em que se acha tão admirável natureza. Observemos bem, leitor, o trágico contraste: uma natureza tão bem ordenada pode chegar a um estado de tão deplorável desordem. Imaginemos mais detidamente o quadro de tal desordem: enquanto nos porões da alma se instalou o supermercado de todos os desejos inventados, inúteis, impróprios e indigestos, lá no salão nobre da vontade espiritual, deserto e silencioso, ela atesta que o homem, por sua vontade mais alta, não sabe querer. Trocou o infinito integral de Deus pelo desintegrado infinito do pó. E por aí se começa a compreender o imenso acerto dos mestres espirituais que nos ensinam que, no caminho da perfeição, isto é, da restauração da ordem, temos de começar pela sola dos pés, pelo desprendimento, pela santa temperança que traz à ilharga, como filha dileta, a virtude primeira do primeiro passo para Deus: a humildade.
BACUARA: Gustavo Corção
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